segunda-feira, 25 de março de 2019

Encontro na Chapada dos Veadeiros valoriza trabalho de parteiras, pajés e benzedeira




Uso de plantas medicinais como remédio, benzimento para afastar o mal, banho de ervas como ritual de proteção. Esses são alguns dos costumes tradicionais seguidos por parteiras, pajés e benzedeiras para promover cura e bem-estar. Também chamadas de raizeiros, extraem das plantações a fórmula para tratar enfermidades, mau-olhado e sensações ruins. Unem a natureza, a fé e a espiritualidade para seguir com a tradição.

No Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, a cerca de 260km do Distrito Federal, ocorrerá pelo quarto ano consecutivo um encontro gratuito com os raizeiros, de 16 a 19 de maio. São quatro dias de imersão nos saberes de cura dos povos tradicionais e uma forma de disseminar essa cultura a outras pessoas. As atividades englobam oficina de remédio caseiro, roda de prosa com parteira, benzimentos e saída a campo para explorar as plantas medicinais do cerrado. Tudo de forma simultânea.

A idealizadora do projeto é a bióloga e especialista em fitoterapia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) Daniela Ribeiro de Souza, 36 anos. Moradora de Alto Paraíso de Goiás, principal cidade da Chapada dos Veadeiros, ela teve a ideia de promover o encontro há quatro anos, como forma de valorizar mestres raizeiros. “É uma forma de salvaguardar e difundir os saberes tradicionais de cura que envolvem a espiritualidade de cada um”, explicou.

O encontro surgiu para estimular que cada pessoa, em seu município ou região, reconhecesse os instrutores da cultura popular local (leia Para saber mais). Mas, desde o primeiro evento, vieram participantes de outras unidades da Federação e até habitantes de fora do Brasil, como do Paraguai, do México, da Suíça e da Índia. “Os indianos relatam, inclusive, que o trabalho feito pelos raizeiros é o que mais se assemelha à medicina ayurveda de lá. O que esses mestres fazem aqui é seguido por médicos na Índia em hospitais, mas, infelizmente, no Brasil é perseguido e marginalizado. Por isso, chamamos de saberes ameaçados”, relata Daniela.

Na visão da idealizadora do encontro, é importante desmistificar o preconceito. “Raizeiro não é bruxa, não é feiticeiro, macumbeiro, como algumas pessoas pensam. O que nós queremos é não deixar essa cultura morrer e mostrar a beleza que ela tem”, destaca.

O encontro em Goiás é protagonizado pelos próprios mestres da cultura popular de cura. São só eles que ministram oficinas e rodas de palestras, inclusive com atividades dentro de Alto Paraíso e do distrito de São Jorge. Pajés que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS) dão o seu testemunho, assim como parteiras que trabalham ao lado de obstetras.

No evento de 2018, foram contabilizados 2,4 mil participantes. Para o encontro deste ano, a previsão é de que a quantidade ultrapasse novamente os 2 mil. Além de viajantes de fora do país, do Distrito Federal e de Goiás, há interessados que saem de Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba para participar do encontro.

“A parteira mais conhecida na Chapada é a dona Flor. Antes do encontro Raízes, os filhos dela não tinham coragem de assumir essa prática, por medo ou vergonha. Com o movimento, eles quebraram esse estigma e já assumiram o legado da mãe”, explica Daniela. Uma das filhas de dona Flor é doula e aprendiz de parteira. O outro filho assume-se como raizeiro.

Durante o curso, os raizeiros também ensinam a fazer remédios caseiros, seja por garrafada, a partir de composto medicinal, seja como balinha para criança. Além da organizadora, outros 50 voluntários trabalham para o evento ocorrer.

Contribuição

Pela primeira vez, Daniela arrecada doações por meio de vaquinha on-line para o encontro. Como o evento é gratuito, a verba serve para custear as despesas dos 70 raizeiros na cidade, garantir a alimentação deles, auxiliar no transporte e na compra de materiais básico, como o de limpeza.

Até ontem, a vaquinha tinha arrecadado pouco mais de R$ 8 mil de uma previsão de R$ 180 mil. “Ousamos ao colocar o valor, porque sonhamos em pagar um cachê de ao menos R$ 600 para cada mestre, além de promover uma ajuda de custo aos voluntários, que é bem abaixo do valor de mercado, mas que nunca conseguimos manter. Mas a nossa prioridade é que eles (raizeiros) estejam no curso, se alimentem e voltem bem para suas casas”, afirma Daniela.

No ano passado, além dos custos básicos, o evento conseguiu colaborar com R$ 104 para cada raizeiro. “Eles não têm salário, ajuda de custo, nada. A partir das caixinhas que distribuímos no evento, conseguimos arrecadar esse valor.”

Ajuda e doações

O primeiro encontro, em 2016, teve parte financiada de um fundo. A idealizadora do projeto participou de um evento e, de lá, surgiu a ideia de promover a difusão de saberes dos raizeiros. Além do pagamento de cachês, transporte e alimentação, parte da verba serviu para gravar um documentário. A partir da segunda edição, o evento ocorreu de forma totalmente independente. O dinheiro era arrecadado de pessoas conhecidas que se identificavam com o tema, além de patrocínio.

Ajude

Quem quiser ajudar pode participar da vaquina on-line doando qualquer valor até 31 de março, pelo link vakinha.com.br. Quem quiser ajuda com patrocínio pode obter mais informações com a coordenadora geral do Raízes, Daniela Ribeiro, pelo e-mail danibiofito@gmail.com. A prestação de contas das doações e de patrocínios é feita detalhadamente via e-mail ou pessoalmente.

Fonte: Correio Web

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