sábado, 31 de agosto de 2019

Da tragédia à reconstrução da vida, o relato de uma vítima da violência doméstica



Um relato emocionante sobre as violências sofridas em um relacionamento abusivo, a reconstrução da vida e realização de trabalho de conscientização sobre a prevenção à violência doméstica foi prestado por Bárbara Penna de Moraes Souza e Robson de Paula, na palestra Um Sorriso a Cada Luta, ministrada durante o seminário Lei Maria da Penha – 13 Anos, Relatos de Vida: A Volta por Cima Após Situações de Violência, realizado no auditório do Ministério Público de Goiás. Bárbara Penna foi vítima de violência doméstica em novembro de 2013.

O ex-marido de Bárbara Penna a agrediu fisicamente, ateou fogo em seu corpo e a atirou pela janela do apartamento em que moravam, que fica no terceiro andar de um prédio localizado em Porto Alegre (RS). Os dois filhos do casal e um vizinho que tentou socorrê-los do incêndio morreram. Ela ficou internada, fez mais de 200 cirurgias plásticas – teve 40% do corpo queimado – e ortopédicas e hoje caminha com a ajuda de uma bengala.

Depois da tragédia familiar, Bárbara Penna conheceu Robson de Paula. Os dois se casaram e tiveram uma filha – que está com 3 anos. O casal decidiu criar o Instituto Bárbara Penna – Uma Luz para a Proteção da Mulher Vítima de Violência Doméstica, que dá apoio a vítimas deste tipo de crime e realiza trabalho de prevenção e conscientização sobre os direitos femininos.

Uma das situações mais constrangedoras para Bárbara Penna foi na primeira audiência realizada na Justiça, quando encarou o agressor pela primeira vez após a tragédia familiar. Ela relatou que teve o quadro de depressão agravado e tentou suicídio. Neste dia, no entanto, ao ser levada ao hospital para receber atendimento médico, descobriu estar grávida. O ex-marido vai a júri popular no início do mês de setembro.

“Muitas mulheres estão perdendo tempo em um relacionamento abusivo porque não sabem sobre os seus direitos, muitas vezes por vergonha de contar a experiência abusiva que estão tendo”, afirmou Bárbara Penna. Segundo ela, as agressões físicas atingem não somente a vítima direta, mas toda a sociedade, principalmente pela forma dissimulada como se apresenta. Os primeiros sintomas são o ciúme, o controle das atividades, a destruição de objetos e de objetivos de vida.

“A violência se manifesta de forma cíclica. Se apresenta como explosão, depois a demonstração de arrependimento e, em seguida, a lua de mel. O final deste ciclo sempre é a tragédia, a morte”, disse Bárbara Penna. Segundo ela, família, amigos e vizinhos não podem ficar em silêncio, devem interferir, denunciar e tomar atitudes para preservar a vida da vítima.

Robson de Paula mostrou o trabalho que vem sendo realizado pelo Instituto Bárbara Penna. Ele explicou que conscientização, coragem para enfrentar a situação de violência e atitude para denunciar podem salvar vidas. Para ele, a Lei Maria da Penha é importante para barrar o ciclo de violência doméstica e que é preciso fortalecer a rede de proteção à mulher, com a criação de casas de abrigo, treinamento para que policiais militares e civis, defensores públicos e demais órgãos que tratam do tema possam realizar o atendimento de forma adequada.

“São atendimentos primordiais para a mulher vítima de violência, o acolhimento e direcionamento pelos órgãos especializados, para que ela possa ter condições de sair de um relacionamento abusivo. As medidas protetivas precisam ser concedidas com maior rapidez e, principalmente, é necessário o despertar da sociedade para a gravidade da situação que a mulher está vivendo dentro de um relacionamento abusivo”, afirmou.

As atividades vespertinas do evento foram concluídas com a realização de uma roda de conversa sobre a temática Transformações para Romper o Ciclo de Violência Vivido: Meios de se Sustentar e Alternativas Econômicas, seguida de debates.

O seminário é uma realização da Área de Políticas Públicas e Direitos Humanos do MP-GO, do Núcleo de Gênero e da Escola Superior do MP (Esump), tendo sido voltado para integrantes do MP-GO (membros e servidores), da rede de atendimento às mulheres, da Defensoria Pública, do Poder Judiciário, estudantes e a sociedade civil. Mais de 250 estiveram presentes às palestras e debates.

Foram parceiros na realização do evento a Prefeitura de Goiânia (Políticas para as Mulheres); Rede Goiana da Mulher Empreendedora; Defensoria Pública (Núcleo Especializado de Defesa e Promoção dos Direitos da Mulher- Nudem); Grupo de Mulheres Negras no Cerrado (Dandara); Conselho de Segurança da Mulher (Conseg); Polícia Civil; da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça de Goiás e Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds-GO).

Fonte: MPGO

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