terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Doentes têm de viajar mais de 400 km em busca de UTI, no interior de Goiás



A falta de vagas em unidades de terapia intensiva (UTIs) é a principal dificuldade apontada por secretários municipais de saúde do interior de Goiás. Os municípios alegam que a espera, muitas vezes, faz com que pacientes morram sem a chance de tratamento em uma UTI, de modo que nem mesmo o transporte dos moradores adoentados para cidades maiores, como Goiânia e Aparecida de Goiânia, resolve o problema.

Até o final deste ano, o governo estadual, por meio de emendas impositivas dos deputados, deve mandar aos municípios R$ 8,9 milhões para a aquisição de ambulâncias, usadas especialmente para o transporte de pacientes do interior para o tratamento emergencial na capital.

A Central de Regulação de Goiânia informa que metade dos seus 424 leitos são ocupados por pessoas do interior. Em Aparecida de Goiânia a situação é parecida: 40% das vagas estão com pacientes de outras cidades. A secretária de Saúde de Mundo Novo, na Região Norte, Maria Madalena de Paula, relata as consequências dramáticas dessa situação. No sábado (7), a comunidade perdeu um morador de 71 anos, que sofreu Acidente Vascular Cerebral (AVC) e aguardava por um leito de UTI, mas morreu ao esperar por seis dias. “No interior nos conhecemos, somos todos uma grande família. Eu estou arrasada, a família está sofrendo muito. Nosso hospital fez tudo que podia e acredito que se tivesse em uma UTI poderia ter sobrevivido. E mesmo que não tivesse, teríamos a sensação de dever cumprido”, completa.

Maria Madalena conta que a mobilização chegou a passar pelo prefeito e por vereadores, mas o atendimento não aconteceu. “A região toda enfrenta isso. Se for fratura exposta é mais fácil, mas em casos de fraturas fechadas já esperamos 12 dias por um leito”, finaliza.

Em Novo Gama, no Entorno do Distrito Federal, a secretária de Saúde, Wisliane Nascimento, diz que, apesar de estar a 10 minutos de Brasília, precisa trazer pacientes a Goiânia. “Passamos por muitas humilhações na porta dos hospitais de Brasília, mas às vezes nos submetemos porque nossos pacientes não conseguiriam chegar em Goiânia. Na capital só se passar pela regulação, mas aí eu não teria chance”, afirma.

Wisliane diz que em casos de vítimas de traumas, que precisam de tomografias, a situação se repete e os “favores” são novamente solicitados. “É muito longe ir pra Goiânia, vivemos uma situação complexa”, finaliza.

Em Morrinhos, na Região Sul do Estado, pelo menos três pacientes da rede pública morreram em 2019 por falta de vagas em UTI, segundo a Secretaria Municipal de Saúde da cidade.

Superintendente de Regulação e Políticas Públicas da SMS de Goiânia, Andréia Alcântara, afirma que não existe a negação de vagas de urgência e emergência para nenhuma cidade. “No caso da regulação dos leitos hospitalares não tem a pactuação, os outros municípios pedem e nós a procuramos.”

Andréia explica que a ocupação da vaga independe da localidade do paciente, sendo utilizado apenas o critério clínico e o perfil dos leitos. “Metade das vagas são ocupadas por pacientes do interior. O questionamento dos gestores se dá porque cada um só conhece a sua realidade, nós que conhecemos a situação global sabemos que não existe isso de negar uma vaga. Não parte da premissa da localidade.”

Em Aparecida de Goiânia, o diretor de Avaliação e Controle da SMS, Luciano de Moura, reforça que 40% dos 53 leitos locais são ocupados por pacientes de outras cidades. “De forma alguma há o privilégio para quem é da cidade, é só pelo estado clínico, pela gravidade do caso.”

Moura garante que o problema em relação a falta de vagas de UTIs reclamado pelos gestores municipais do interior ocorre em razão da quantidade e do perfil dos pacientes. “Em Aparecida, por exemplo, temos serviços especializados em neurologia, existe então uma facilidade maior em ter vagas nesta especialidade, mas já há grande dificuldade em leito oncológico.”

Fonte: O Popular

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