sábado, 2 de maio de 2020

Goiás tem pelo menos 286 recuperados de coronavírus



O Estado de Goiás já tem, pelo menos, 286 pessoas recuperadas do novo coronavírus (Sars-Cov-2). A reportagem entrou em contato com as prefeituras e secretarias de Saúde dos 58 municípios goianos com casos confirmados da doença pela Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO) até o dia 30 de abril. Não obteve contato apenas com a gestão de Guapó, que conta com um caso confirmado da Covid-19.

O número de pessoas recuperadas, entre elas casos leves e graves, representa 36,7% do total de 781 casos confirmados registrados pela SES-GO no dia 30 do último mês. O número está abaixo da média nacional que, neste mesmo dia, estava em 42%. Porém, a superintendente de Vigilância em Saúde da SES-GO, Flúvia Amorim, acredita que a quantidade de pessoas curadas em Goiás é maior. “Temos que levar em conta que os casos que não viram óbitos, automaticamente viram curas”, esclarece.

Um exemplo de que o número de pessoas recuperadas no Estado é maior é o caso de Goiânia. Na capital do Estado a divulgação do número de pacientes curados ocorre baseada nos casos com investigação completa, ou seja, casos em que se tem todo o histórico e informações do paciente. Porém, no dia 30 de abril a capital, que contava com 448 casos confirmados, representando mais da metade das pessoas doentes do Estado, tinha 197 casos ainda sob investigação. Sendo assim, ainda não é possível confirmar precisamente se 44% dos casos confirmados de Goiânia foram curados ou não.

A superintendente explica que a SES-GO ainda não divulga no boletim epidemiológico diária da pasta o número de pessoas que foram curadas no Estado por conta da quantidade de dados que as equipes da secretaria tem de lidar diariamente. “Temos que ‘limpar’ muitas inconsistências. Além disso, os municípios não estão alimentando o sistema adequadamente. Caso isso acontecesse teríamos esse dado de forma automática pois no formulário que eles nos enviam tem um espaço onde se preenche se o caso evoluiu para cura ou óbito”, afirma.

Segundo ela, o problema foi discutido na reunião do Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública para o Novo Coronavírus (COE), que ocorreu nesta quarta-feira (29), onde ficou decidido com o Conselho de Secretarias Municipais de Saúde do Estado de Goiás (Cosems-GO) que as secretarias municipais terão mais atenção com a questão. Segundo ela, a definição adotada pela SES para considerar uma pessoa que se infectou com o novo coronavírus como curada é a avaliação clínica. “Em momentos como esse, a clínica é soberana”, enfatiza.

Flúvia diz que mesmo com o número crescente de pessoas curadas, é preciso que a população mantenha, se possível, o isolamento social, use máscaras, o álcool 70% e lave bem as mãos. “Esse número pode mudar a qualquer momento. Se as pessoas descuidarem os casos vão aumentar de uma vez e teremos mais casos graves e mortes. É preciso continuar seguindo as recomendações dos órgãos de saúde”, esclarece.

Imunidade

Flúvia explica que em meia à discussão internacional se as pessoas que foram infectadas uma vez pelo novo coronavírus, podem ficar doentes novamente, a recomendação da superintendência é que as pessoas curadas sigam usando máscaras e tendo cuidados redobrados com a higiene. “A orientação é que todo mundo continue se prevenindo”, pontua.

Até mesmo a utilização do termo “curado” é motivo de questionamento. O médico Boaventura Braz, infectologista do Hospital de Doenças Tropicais (HDT), diz que ainda não é possível afirmar que as pessoas que se contaminaram com o novo coronavírus uma vez estão imunes à doença.

“Não pode se dizer isso precisamente. Tem uma grande discussão no âmbito internacional sobre o assunto. Se nos basearmos, por exemplo, no surto de Sars-Cov em 2002 veremos que a imunidade de quem se infecta durou só três anos”, explica.

Braz conta que por ser uma doença muito nova, a Covid-19 ainda é cercada de dúvidas e, por isso, é necessário ter cautela. “Temos casos de pessoas que testaram positivo novamente. Porém, não podemos trabalhar em cima de um percentual mínimo. Pode ser que essas pessoas que pegam da doença mais de uma vez a doença sejam exceções”, aponta.

A médica infectologista Christiane Kobal também diz que ainda é muito cedo para dizer se as pessoas que já foram infectadas pelo novo coronavírus podem se infectar de novo ou não. “Podemos falar que elas estão curadas e que a curto prazo é muito improvável pegarem de novo. Porém, a médio e longo prazo ainda não podemos afirmar nada precisamente”, enfatiza.

Kobal diz ainda que, mesmo que o percentual de cura da doença seja alto e a maioria das pessoas desenvolvam apenas sintomas leves, a Covid-19 é uma doença imprevisível e por isso é preciso que as pessoas se resguardem. “Ainda não conhecemos bem a doença. Por isso, não dá para saber se quando a pessoa pegar ela vai morrer ou não. A doença também tem se desenvolvido de forma grave em pacientes jovens e sem comorbidades”, afirma.

Segundo ela, cientificamente, o ideal é que as pessoas não pegassem a doença agora. “Quando mais as pessoas puderem adiar é melhor porque hoje não temos cura e tratamento eficaz, mas é possível que daqui a algum tempo tenhamos”, esclarece. Ela conta que também é preciso ressaltar que apesar de poucos, os casos graves da doença ficam muito debilitados. “Estou dentro de hospitais todos os dias e vejo a realidade da doença. É preciso que sigamos tomando cuidado porque a morte de uma pessoa já é uma tragédia e não sabemos como o nosso corpo vai reagir à doença”, pontua.

“Em fase ativa, doença mostra a potência que tem”

Uma das pessoas de Goiás que ficou em estado grave por conta da Covid-19, mas se recuperou foi o médico cirurgião e professor de cirurgia, Edson Tadeu de Mendonça, de 61 anos. Ele foi internado no dia 21 de abril no Hospital do Coração Anis Rassi, em Goiânia, onde chegou a ficar em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ele foi para casa nesta terça-feira (28).

Segundo ele, o período em que ficou doente foi muito difícil. “Durante sua fase ativa a doença mostra a potência que tem. Para mim foi um período terrível. No meu caso e outros vários casos graves ela tem uma potência e virulência extraordinária. O que me preocupa muito como médico é a forma que ele muda de um organismo para o outro”, afirma o médico.

No início, Edson foi diagnosticado com dengue grave, mas após 8 dias começou a ter febre e dores musculares. Uma tomografia mostrou que os pulmões estavam bem afetados. No hospital, ele e sua mulher realizaram novos exames e os resultados até então negativos foram positivos. Em seguida, o médico precisou passar por uma cirurgia e com isso acabou sendo transferido para a UTI.

O profissional suspeita que se contaminou enquanto operava e realizava visitas no Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde trabalha. Ele explica ainda que ao concluir suas atividades na unidade seguia para casa, onde ficava completamente isolado junto com sua mulher, que também é médica, Maria Edna Pereira Quaresma, de 60 anos, que foi internada no Hospital do Coração Anis Rassi um dia depois dele e também foi para a UTI. “Graças a Deus ela está melhor e saiu da UTI nesta quinta-feira (29)”, pontua.

Segundo ele, desde que se curou e está em casa tudo tem sido mais fácil. “As forças vão voltando e tudo volta ao normal. Devo meu bem estar à ciência logofísica, uma ciência humanística, que fortaleceu minha mente e permitiu que meu ânimo não fosse afetado mesmo com condições físicas abatidas”, conta.

Edson ressalta que depois de se recuperar não pensou em abandonar a profissão. “Eu tenho uma missão como médico e ser humano e penso que daqui uma semana ou no máximo daqui 10 dias quero estar trabalhando e operando novamente. É algo intrínseco em minha vida e enquanto tiver forças vou continuar fazendo”, finaliza o médico.

Desenvolvimento de vacina é esperança contra a doença

A vacinação ainda é a maior esperança na luta contra o novo coronavírus (Sars-Cov-2). De acordo com a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Mayra Moura, a vacinação é a ação mais estratégica na hora de prevenir a doença. “Justamente pelo fato de ainda não sabermos se as pessoas que pegaram a doença estão imunes permanentemente é preciso de uma vacina que garanta isso”, explica.

Segundo ela, um grande número de pessoas vacinadas é a melhor forma de assegurar que a doença não vai se espalhar e também é uma de forma de proteger quem não estiver vacinado. “É o que chamamos de imunidade de rebanho. Digamos que temos 100 pessoas doentes. Se 90 delas se vacinarem, as outras 10 automaticamente vão estar muito protegidas porque as pessoas vacinadas vão diminuir a capacidade de circulação do vírus”, afirma Moura.

A diretora conta que no mundo já existem cinco vacinas em desenvolvimento na etapa mais avançada de testes. “São três etapas: a laboratorial, a pré-clínica onde é feita a análise em animais e a etapa do estudo ou ensaio clínico, que se divide em três fases. Temos laboratórios nos Estados Unidos, China e Inglaterra que já estão trabalhando na primeira fase do estudo clínico”, esclarece.

Moura diz que a rapidez no desenvolvimento da vacina tem sido resultado de um esforço mundial e estratégia diferenciada. “Normalmente levamos anos para fazer uma vacina. Os recursos são muito caros e o costume é iniciar uma etapa apenas quando a anterior é concluída. No caso do novo coronavírus, as etapas estão sendo desenvolvidas em paralelo para perder a menor quantidade de tempo possível”, conta.

A diretora da SBIm afirma que existe uma promessa de que a vacina contra a Covid-19 fique pronta ainda em setembro deste ano. “Não estou envolvida diretamente em nenhum estudo para poder refutar essa data. Porém, posso afirmar que caso eles consigam desenvolver a vacina em menos de um ano vai ser um marco histórico”, finaliza Mayra.

Fonte: O Popular

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