sexta-feira, 5 de junho de 2020

Cavalcante-GO é o município com maior índice de desmatamento em Goiás



O município de Cavalcante, no Nordeste de Goiás, é o que tem a maior área com alertas de desmatamento neste ano no Estado. Em 2019, a localidade foi a 15ª em perda de vegetação. Os dados do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do início do ano até o último dia 21 contabilizam 19 avisos de devastação que correspondem a 1.140 hectares, o equivalente a aproximadamente 1.140 campos de futebol.

A área é maior que a perdida na localidade em todo o ano passado: 1.134 hectares. A região que representa a última fronteira do Cerrado preservado em Goiás recebe um duro ataque na semana do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado nesta sexta-feira (5).

Os dados do Deter, com informações de satélite, indicam também que 91% da destruição ocorreram em apenas dois dias. No último dia 31 de março constam cinco alertas de desmatamento para uma área de 375 hectares. No dia 26 de abril há o registro de oito avisos referentes a 667 hectares. As datas podem, de acordo com Inpe, eventualmente sofrer alterações caso a área fique coberta por nuvens, o que impede momentaneamente a visualização da modificação do solo.

Conforme a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), o crime ambiental está em propriedades que ainda não foram desapropriadas, mas dentro do território quilombola, e parte na Área de Proteção Ambiental de Pouso Alto, sob a gestão do Estado. A devastação de cerca de mil hectares, informou a Semad, está divida entre duas fazendas.

A área desmatada fica a cerca de 1h30 de carro, em uma via não pavimentada, já na divisa entre Goiás e Tocantins. Para chegar ao terreno, é necessário passar por duas serras. A propriedade rural fica em um platô a cerca de 1,4 mil metros de altitude, 600 a mais que Cavalcante. Lá estão as nascentes dos rios Corrente, Correntinha, São Félix e Claro. Um manancial famoso da região, o Rio da Prata, é vizinho do espaço devastado.

Embora sob os cuidados do Estado, a área é federal, diz a Semad. O Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga, onde está parte da área desmatada tem 264 mil hectares, mas apenas cerca de 60 mil hectares foram titulados. No perímetro total estão 32 comunidades. A legislação estabelece que interferências no local devem ser debatidas com os residentes, o que não ocorreu, segundo o presidente da Associação Quilombo Kalunga, Jorge Moreira de Oliveira.

A área afetada, de acordo com a comunidade local, tem um importante papel social e econômico. “É um cerrado que nossos antepassados calungas preservaram há mais de 300 anos, riquíssimo em fauna e flora com muitos frutos. Estamos perdendo nossa beleza que faz parte da vida, não só dos calungas, mas de toda a região”, lamentou Oliveira.

Operação

Andréa Vulcanis afirmou nesta quinta-feira (4), durante um painel online que integra a programação da Semana do Meio Ambiente da Semad, que “as primeiras análises” da pasta indicavam uma devastação “ilegal” de quase mil hectares. Por este motivo, Andréa deixou o evento virtual e foi de avião acompanhar os trabalhos dos servidores.

Os dados dos alertas de desmatamento do Inpe ficam disponíveis na internet. Entretanto, a secretária afirmou que a Semad ficou sabendo do crime ambiental por meio de denúncias na última terça-feira (2) e, imediatamente organizou uma operação para combater a ilegalidade.

Andréa disse que a Semad não havia sido notificada. “O Inpe faz os levantamentos das imagens de satélite e tem uma avaliação manual. Há uma equipe que passa os dados de alertas para os órgãos ambientais, mas isso não é diário.” Em uma das duas propriedades rurais, segundo a secretária, havia apenas um caseiro que informou que a área estaria arrendada por uma empresa de mineração.

Agentes da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente (Dema) integram o trabalho. A reportagem questionou o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama sobre o desmatamento, mas não houve resposta.

Grupo publica manifesto

A comunidade de Cavalcante se mobilizou por meio das redes sociais assim que tomou conhecimento do desmatamento no território calunga. Guias locais, calungas e empresários do turismo acionaram a Semad e também divulgaram a devastação nas redes sociais. A hashtag #salveoprata, em alusão ao rio da região, tinha mais de cem compartilhamentos nesta quinta-feira. Um manifesto na internet lançado nesta quinta-feira já tinha quase 8 mil assinaturas às 19h.

O presidente do Conselho Municipal de Turismo, Rodrigo Batista Neves, informou ao POPULAR que organiza, junto a outros atores locais, uma representação que será encaminhada ao Ministério Público Estadual e ao Federal.

Ele, que também é empresário da região, lamenta a devastação. “Esta área que foi derrubada fazia parte de um roteiro turístico. Nós acampávamos, levávamos dois dias para atravessá-la. As fotos do Instagram da minha empresa terão de ser apagadas, porque o passeio não existe mais.”

Integrante de uma comunidade calunga, Edivan dos Santos Moreira estava triste após visitar o local devastado. “Nossa área é uma das mais preservadas que tem. Então, estar acontecendo isso é muito triste. Poucas pessoas sabiam do que estava acontecendo. Por causa da pandemia as pessoas estavam mais resguardadas e lá é um local de difícil acesso, a informação não chega com facilidade para nós.”

A preocupação é que o projeto para a área seja o plantio de soja, o que poderia, segundo os calungas, contaminar os mananciais da região utilizados pelas comunidades para abastecimento e agricultura.

Fonte: O Popular


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