segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Chapada dos Veadeiros: Devastação do cerrado ameaça povo quilombola




Chapada dos Veadeiros/Cavalcante (GO) – Sob a sombra da pandemia, fazendeiros e prefeito de uma cidade goiana são acusados de devastar milhares de hectares de mata nativa de cerrado na região da Chapada dos Veadeiros, no estado vizinho a Minas, incluindo parte de uma área no maior quilombo do Brasil, o Kalunga, com 262 mil hectares.

Somente entre os meses de maio e junho, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) de Goiás confirmou o desmatamento de mais de 2 mil hectares, em 25 pontos. Porém, comunidades tradicionais e organizações não governamentais dizem que o estrago pode ser muito maior.

Estudo publicado este mês na revista Science identificou que um quinto das exportações de soja da Amazônia e do cerrado brasileiro à União Europeia tem a mancha do desmatamento ilegal. O dado se reflete em flagrantes como os registrados nesta reportagem em Cavalcante, no Nordeste de Goiás.

Integrantes da comunidade local denunciam que, aproveitando-se de um momento em que quase toda a atenção da sociedade se voltou para a saúde, desmatadores começaram a agir com maior intensidade, usando tratores, correntes, esteiras, motosserras, fogo, causando todo tipo de degradação.

Acostumados a fiscalizar e a preservar o meio ambiente, integrantes da população local, em especial os quilombolas, acreditam que criminosos agem na percepção de que há menos gente para vigiar área tão extensa, o que tem incentivado os crimes. De fato, fazendeiros têm se aproveitado para destruir áreas de preservação na Chapada dos Veadeiros, que é um dos maiores pontos de reposição hídrica da bacia Amazônica, a maior da América do Sul.

Lideranças também apontam que, devido à demora na titulação das terras – demarcadas desde 2009, mas que ainda esperam desapropriação pelo governo federal –, os crimes têm se intensificado. “Principalmente após fala do ministro”, atesta um quilombola local, referindo-se a Ricardo Salles, do Meio Ambiente. Em reunião ministerial com presença do presidente Jair Bolsonaro, cujo conteúdo foi divulgado pela Justiça, o titular da pasta indica que o momento em que a atenção da imprensa está voltada para a pandemia é um “alívio” e uma oportunidade para “passar as reformas infralegais de desregulamentação”.

“Então, para isso precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo. Agora é hora de unir esforços pra dar de baciada a simplificação”, conclui Ricardo Salles, aparentemente tratando de regras da administração federal que independem de apreciação pelo Congresso Nacional.

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