quinta-feira, 11 de março de 2021

Municípios de Goiás correm contra o tempo por oxigênio


O aumento do uso de oxigênio em unidades de Saúde do interior iniciou uma corrida por cilindros e abastecimento de oxigênio em Goiás. Alguns municípios já encontram dificuldade de achar o insumo e chegam a ficar à beira de um colapso por falta de oxigênio. No fim de fevereiro, Ceres, na Região do Vale de São Patrício, chegou a ficar no limite e teve de diminuir ao máximo a dosagem nos pacientes até chegar um novo reabastecimento.

Em Itaguaru, na mesma região, a prefeitura só conseguiu comprar 60% do oxigênio necessário nesta quarta, após atraso do fornecedor, que faz abastecimentos diários. No Hospital de Campanha de Porangatu, houve empréstimo dos cilindros de cidades vizinhas, por precaução, após aumento da demanda na semana passada.

A presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems), Verônica Savatin, diz que o consumo de oxigênio triplicou nos municípios nesta segunda onda da pandemia e que as cidades têm aumentado a quantidade de cilindros, as chamadas “balas”. Alguns estão encontrando dificuldade na compra desse material, por escassez do produto no mercado. “Os municípios estão se organizando aumentando a quantidade de cilindros e também fazendo abastecimento mais vezes na semana.”

No último fim de semana de fevereiro, a Unidade de Pronto-Atendimento de Ceres chegou ao limite, com risco iminente de falta de oxigênio. “Nosso estoque ficou no limite, ficamos com medo”, relata o coordenador Eduardo Parreira.

Enquanto a organização social que administra o local providenciava o reabastecimento, os profissionais tiveram de economizar. “A gente tentou ao máximo diminuir o consumo de oxigênio”, conta Parreira, que também é médico. Segundo ele, os profissionais de saúde mediam a chamada gasometria arterial dos pacientes para verificar se era possível diminuir a dose de oxigênio. “Se tiver boa, dá para diminuir? Diminui. Se não está boa, tem de aumentar. O pessoal ficou apavorado”. O coordenador diz que a situação foi estabilizada com a chegada de mais oxigênio e hoje possuem estoque suficiente.

A UPA de Ceres se tornou uma espécie de semi UTI, com vários pacientes entubados aguardando uma vaga na rede estadual. Em média, são 20 internados, sendo 6 na sala vermelha, que é onde estão os mais graves. A cidade é referência na região do Vale de São Patrício 1 e é procurada para atendimento médico por habitantes de outras 19 cidades.

Busca ativa

Itaguaru tem apenas 5 mil habitantes, mas o hospital municipal está lotado, com seis pacientes internados, sendo um entubado há dez dias com o único respirador que a cidade dispõe. Todos estão à espera de vagas na rede estadual. Nesta quarta-feira (10), houve atraso do fornecedor de oxigênio, que relatou estar com dificuldade para conseguir reabastecer, segundo a secretária municipal de Saúde, Darcimeire Fernandes de Lima.

A prefeitura de Itaguaru teve de fazer então uma busca ativa por oxigênio, procurando um local para reabastecer os 15 cilindros da cidade. “Estamos à procura de novos fornecedores, para caso o nosso não consiga nos abastecer, termos outras opções. Mas alguns que entramos em contato nos disseram que não podem nos atender porque têm outros clientes na frente”, relata a secretária municipal.

O município conseguiu comprar oxigênio em Ceres, mas não em quantidade suficiente. “Hoje conseguimos adquirir somente 60% do oxigênio necessário. O que conseguimos hoje, talvez vai dar para esperar até amanhã (quinta-feira, 11)”, alerta Darcimeire. O fornecedor, que costumava atender a cidade diariamente, disse que só poderá reabastecer os cilindros do município na próxima sexta-feira, segundo a secretária. “Amanhã iremos buscar (mais oxigênio). Até sexta estamos garantidos. A partir daí, só Deus sabe.”

Ajuda vizinha

No Hospital de Campanha (HCamp) para pacientes com coronavírus, em Porangatu, Norte de Goiás, houve um mutirão para garantir o oxigênio para os pacientes internados, na semana passada. Após um aumento assustador de pessoas com coronavírus, nas palavras da assessoria da prefeitura, o município acionou cidades vizinhas para garantir o abastecimento. A prefeitura diz que não chegou a ficar perto de acabar.

Novo Planalto, Santa Tereza, Formoso, Trombas e Alto Horizonte levaram então cilindros de oxigênio para o hospital de Porangatu, que tem 15 vagas de UTI e 17 leitos de enfermaria, todos lotados.

Fila

Muitos desses pacientes que estão em cidades menores utilizando oxigênio, estão aguardando vaga de internação na rede estadual. Por volta das 15h30 desta quarta, havia 583 pacientes com suspeita ou confirmação de coronavírus esperando por um leito de internação, sendo 291 por vaga de UTI e 292 por vaga de enfermaria.

O estoque de oxigênio do local onde o paciente aguarda a vaga é um dos critérios para definir a prioridade na fila da UTI. Em entrevista para o POPULAR na última segunda-feira (8), o diretor técnico do Complexo Regulador Estadual de Goiás (CRE), Madson Bedim, explicou que os médicos reguladores, que definem quem vai receber a vaga primeiro, avaliam as condições da unidade onde o paciente espera. Outros critérios são o tempo de espera e o estado de saúde da pessoa.

Indústria de “bala” aumentou produção

Uma das principais empresas responsáveis pela fabricação de cilindros de oxigênio no Brasil, o Grupo MAT teve de contratar mais funcionários e aumentar o turno de trabalho para poder dar conta da demanda gerada pela pandemia do coronavírus (Sars-CoV-2). No início do ano passado, a indústria produzia cerca de 20 mil cilindros por mês, atualmente são 25 mil. Os cilindros também são chamados de “balas”.

O diretor comercial da MAT, Jorge Mathuiy, diz que a encomenda de cilindros de 50 litros, que são os mais solicitados, é realizada com um tempo entre 45 e 50 dias para a entrega. “Nós já temos programação. As companhias de gases são os maiores compradores, então elas já têm uma programação conosco até mais ou menos o meio do ano”. Estas companhias são as empresas que produzem o oxigênio e abastecem os cilindros, como a White Martins e a IBG.

Mathuiy diz que a MAT está atendendo o mercado, sem contratempo até o momento, mas explica que a produção das “balas” também depende de outros produtos. “A preocupação que existe é com relação aos outros insumos que nós dependemos para produção”

De acordo com Mathuiy, para a produção dos cilindros de oxigênio são necessárias válvulas e uma proteção dessas válvulas, chamada de capacete, que não são produzidas pela MAT. “Coisas que estão fora do nosso controle é que nos preocupam. O que diz respeito a nós como empresa e fábrica, estamos tranquilos. É torcer para que não haja nenhum ‘gap’ (inconstância) de fornecimento de outros materiais, que nos permitam manter o fluxo de produção.”

Mathuiy diz avaliar que a lição da crise de Manaus foi entendida, da importância de se atentar aos locais com logística mais complicada, e que dificilmente uma situação igual vai se repetir.

Além da MAT, há apenas uma empresa no Brasil que produz cilindros de oxigênio, a Gifel Cilindros e Sistema.

Fonte: O Popular

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